Em uma conversa na lista PSL-Brasil, um dos contertúlios comentou que, ao colocar-se um livro numa rede P2P só estamos mudando de intermadiário: enquanto um livro impresso tem a editora entre o autor e o leitor, numa rede P2P há o “distribuidor” entre o autor e o interessado.
Bom, o suposto da substituição do intermediário é quase esse, mas não significa que os intermediários são da mesma … “categoria” (digamos assim).
Enquanto o editor (na verdade, toda a cadeia de produção, publicidade, distribuição e revenda) é alguém que só se mexe pelo lucro, o replicador gratuito está aí pela cooperação, compartilhamento, para fazer a sociedade crescer e avançar.
O modelo de ter que pagar pelo livro na livraria foi uma evolução histórica que surgiu em um momento em que a tecnologia para imprimir 1 (um) livro era caríssima e reproduzi-lo manualmente levava muito tempo. Ou seja, é algo do final do tempo das trevas… E é nisso que “esse pessoal” ainda tenta se agarrar… Uma prensa, papel, tipos, tinta e a manipulação disso tudo era algo que nem interessa(va) aos autores, nem era de sua competência (no sentido de saber-fazer) e estava longe de suas posses (sempre foram mal-pagos). Assim, surgiram os editores e a cessão dos direitos de cópia (copyright), que supõe-se ser originariamente do autor e que este cedia a alguém que tinha os meios de produção e o capital necessário para difundir o conhecimento ou o entretenimento registrados no livro.
A forma e o valor do pagamento, naqueles tempos, nem se pode imaginar. Mas hoje todos sabemos que os autores recebem mixaria por cada livro vendido (ainda mais os que não são best-sellers). Nunca escrevi um livro, mas todos os exemplos que se encontra na internet falam em algo como 5% de royalties no máximo para os autores (que, se têm sorte, são pagos adiantados). Mas nem sempre se aplica o percentual sobre o valor de capa do livro, mas sim sobre o valor de venda no atacado (o preço que a editora vende para a livraria, que costuma ser menos da metade do valor de capa). Então, se um livro custa R$100,00 na livraria, um autor felizardo receberia até R$5,00 por ele, mas provavelmente não veja mais que R$2,50 ou R$2,00. Isso em um livro que custa R$100. E, se for um livro típico de literatura, sendo vendido a uns R$30 ou R$40, o autor pode embolsar talvez 1 real por livro vendido. Tiragem típica no Brasil, 3000 cópias e caindo… Levando 2 ou 3 anos para esgotar-se… Deu para sacar que quem que está ganhando não é o autor, certo? (Off topic: tsk tsk, pobre do país em que não se roubam livros…).
Referente à música, a coisa vai na mesma balada (só para fazer um trocadilho
Olha só um texto do ano 2000 que saiu na Folha: http://geladeira.mushi-san.com/?p=217 (tem uma versão ligeiramente diferente em http://distorsom.no.sapo.pt/webzinetxt/courtneylove.html - em português de portugal)
Tem autor de livro didático universitário que recebe a “parte dele” (os royalties) em livros mesmo, de forma que, se ele vender (talvez tentando “empurrar” para seus alunos), o dinheiro é dele! Veja só que situação - um professor ter que se travestir de vendedor de livros para ter algum dinheiro por sua obra…
Ou seja: O grosso-grosso do dinheiro fica nos atravessadores e na editora… Ora, então se eliminarmos esse povaréu do meio do caminho, o valor que precisa ser encontrado para remunerar o autor, é bem bem bem menor do que se imagina.
Também quem não ouviu relatos de livros que foram lançados em papel e eletrônicos (para download grátis ou quase-grátis) e observou-se que a venda da versão em papel superou as expectativas - atribui-se o fenômeno a que, ao baixar a versão eletrônica, o leitor pôde ter certeza de que a compra em papel valeria a pena.
E ainda há situações em que ler um livro em papel é mais agradável, mais prático, mais prazeiroso…
Então, sempre haverá uma demanda para isso (reduzida, acredito eu, talvez mais adequada para a impressão sob-demanda)
Eu prefiro algo impresso e encadernado bem acabado do que algo feito na impressora laser do escritório e encadernado com espiral… (ok, a tecnologia avança a passos largos e tem gente que tem uma impressora laser do escritório que gera livros de qualidade equivalente às das gráficas/editoras; mas acho que ainda não é a maiorira).
Aí alguém diz: bom, mas aí não vai haver mais autor que se mexa para escrever nada, porque não vai receber por isso……
A gente pode pegar exemplos de como são produzidos softwares livres e ver que também se aplicam ao mundo dos livros:
- tem gente que escreve software livre por diversão - pois então, por que não pode ter gente que escreve livro por diversão?
- tem gente que escreve software porque precisa daquele software e depois libera como software livre - um cidadão que escreve uma tese de doutorado é um exemplo disso. Depois de escrita, porque não publicá-la eletrônicamente, gratuitamente?
- tem gente que escreve software livre porque é pago para isso: pois será que não há empresas que contratam pessoas para escrever manuais de máquinas, livros técnicos sobre linguagens de programação, etc?
- tem gente que escreve software livre porque quer aumentar sua empregabilidade: ora, vai ter gente escrevendo livro de auto-ajuda para virar um conferencista muito bem pago… lair ribeiro e paulo coelho que o digam…
- e dá para pensar em outras analogias… o pai que conta estórias para seus filhos, pode virar autor de livros infantis; a professora de matemática que cria uma apostila para seus alunos, etc.etc Além disso, escrever livros colaborativos (como wikibooks) permite reduzir o tempo que uma pessoa dedica a escrever um livro, porque outros assumem tarefas complementares…
Da mesma forma que há softwares livres bem escritos e outros ~nem tanto~, haverá livros bons e outros … ~nem tanto~ (bom, essa é a realidade agora, então, não muda muito).
Alguém pode pensar: mas e a revisão, a maquetação, as ilustrações - alguém tem que pagar por isso… E é claro que deve ser pago: o conhecimento deve ser livre, mas o trabalho não pode ser escravo. Mas no modelo caduco atual, esse pessoal geralmente é pago antecipadamente, por trabalho (e não royalties) o que significam valores mínimos (quando comparados aos ganhos dos atravessadores). Talvez algo do valor para pagamento possa vir da versão em papel vendida dessas obras, outra parte pode vir do que o autor principal receber por seus serviços, palestras, etc…
E da mesma forma, haverá quem faça o trabalho por diversão, outros porque precisam, outros porque querem aumentar sua exposição e empregabilidade…
Bom, esse é meu “modelo de negócio” para defender que P2P é saudável, gostoso e faz bem para a sociedade. Para a sociedade. (como diria um anúncio de inseticida). Eu o vejo como viável, mas claro, não gerará magnatas, e provavelmente geraria uma redução brutal no número de novos títulos disponíveis (em um primeiro momento). Mas alguém já disse que há ordens de magnitudes de livros fora de catálogo quando comparados com os que estão disponíveis hoje.
Compartilhar em redes P2P é uma forma de não deixar uma obra “sair de catálogo” !!!
Em uma matéria traduzida que saiu no Estadão: “15% dos livros estão em domínio público; 10% estão nos catálogos de editoras e, portanto, há com quem negociar cessão de direitos - (…). O resto, ou 75% de todos os livros, estão no limbo. Fora de catálogo, órfãos de autor mas, por conta das leis de copyright, não podem ser copiados.”
http://listas.ibict.br/pipermail/bib_virtual/2006-May/002783.html
Ufa. Se alguém leu até aqui, agradeço
















